Quinta-feira
Terça-feira
Segunda-feira
Às minhas costas há uma escada que pouca gente usa, pois pensam que a área de convivência, ou o espaço de repouso dos mendigos, ou o toalete dos pombos, não tem saída do outro lado – mas sim, tem. Por essa escada, enfim, não vou me prolongar, sobe, de chofre, enquanto tomo chuva, a ofensa, o disparate, a provocação que me atormentará pelo resto do dia. É uma velha quem a profere, e o horror sai de sua boca antes mesmo que ela me encare de frente. Quando passa, olha pra mim com uma cara de desdém, e em seus lábios se insinua um risinho de desprezo. A sua filha a acompanha, e ela, por sua vez, me fita com o rabo do olho, apática. Por uns instantes ainda fico na dúvida: as palavras foram dirigidas a mim? Mas como, por quê, o que é que eu fiz a elas, e a ela, principalmente, à velha que, sem nem me ver direito, já saiu disparando calúnias absurdas? Que porra é essa? O triste é que a coisa foi comigo mesmo. Não havia ninguém ao redor, e além disso ela olhou, com desdém, com despeito, diretamente nos meus olhos. É claro que não é a primeira vez que sou tratado assim, como lixo, por muitas vezes já atacaram a minha dignidade, óbvio, a cada esquina desta cidade horrorosa um buraco humano nos espreita, um disparate já na ponta da língua, principalmente se você faz parte de minorias, se cultiva cabelos compridos, se anda sempre olhando para o chão, mas enfim, como esperar uma coisa dessas, estava tão de boa no meu canto, crente de estar invisível, que custei a acreditar. Vejam só: fui provocado sem nenhum motivo. Repetindo: fui provocado, ridicularizado sem nenhum motivo. Imaginem isso: estava de boa, tomando chuva no meu canto, olhando pra frente mas não mirando nada nem ninguém em particular, tranqüilamente esperando pelo horário conveniente para me deslocar até a terapia quando, do nada, me insultam. Ora, somos todos irmãos, estamos todos na lama, encurralados na mesma sina de merda, será possível que ela não saiba disso, que não se deve fazer aos outros o que você não quer que façam com você? Qual é o sentido de escancarar a boca, fazer passar o ar pelas cordas vocais, movimentar centenas de músculos, construir, no cérebro, uma sentença, gastar, enfim, tanta energia só para rebaixar o outro – eu, no caso, hoje e quase sempre? Por menor que seja a provocação, ela pode deprimir, machucar, levar ao suicídio, ao assassinato. Ela viveu tanto e, só pelo que me disse, sei que não aprendeu nada. Eu sou um ser humano, porra.
Sim, eu sou. E por mais que tente me convencer de que sou forte, de que tenho bons métodos de resistência contra a mediocridade alheia, ainda, infelizmente, sou extremamente suscetível aos insultos dos buracos humanos. Logo eu, especialista no assunto, engolidor profissional de sapos. Já passei por tanta coisa, já fui humilhado tantas vezes, mas ainda assim uma mera ironiazinha me pega de jeito. Lamentável. Ela deve ter me ofendido, imagino, por ter sido tratada do mesmo modo por outro buraco humano, velha gorda, devem ter-lhe dito, chupadora de picas, e então resolveu vomitar todo o seu ódio estocado sobre mim, toda a torrente de aflições e ressentimentos entornada diretamente na minha cabeça. Ou, não sei, vai ver que o marido dela é alcoólico, ou que sua aposentadoria mal dê para os remédios, ou que ela, furiosamente, não se aceite do jeito que é, no que se transformou. Apesar do impulso de retrucar, de apontar-lhe o dedo na cara, de também ofendê-la e difamá-la, de devolver na mesma moeda, mantenho-me sentado, olhando horrorizado enquanto elas se vão, as bolsas coladas ao corpo, em fila indiana. Não devo perpetuar a barbárie. Ela é um buraco humano mas eu não sou, sim, eu não sou, penso, devo perdoá-la, ela não sabe o que faz, um buraco humano ainda assim é um ser humano, ela deve possuir os seus motivos, quais, tanta infelicidade e desorientação, tanta sordidez e inconseqüência, mas ainda há o futuro, meu deus, quem sabe ela se dê conta da coisa toda nos poucos dias que lhe restam. Não devo odiá-la, desejar, em pensamento, dar um tiro no meio de sua testa, mas ter compaixão, conceder-lhe o perdão, cultivar a esperança de que ainda haverá vez, nela, nos outros, também em mim, para a gentileza, o respeito, o silêncio - a tolerância. Devo fazer a minha parte. Esforce-se no propósito de tratar todos bem, resista às contingências de merda e lama de modo íntegro, continue contribuindo, a seu modo, para um mundo mais justo e harmonioso. Esforce-se, Hélio. Huc, huc.
Quinta-feira
Segunda-feira
Bukowski?
Sim.
Fante?
Sim.
Céline?
Sim.
Hamsun?
Sim.
Salinger?
Sim.
Bernhard?
Sim.
Littell?
Sim.
O Jonathan? Meu deus. Faulkner, Carson McCullers, Flannery O’Connor?
Sim, sim e sim – se bem que, delas, só tenho os livros: ainda não as li.
Ah, estou na mesma: ler, ler mesmo eu também só li o Faulkner. O som e a fúria, hein, puta que pariu, livrão. E, bem, tô há uns seis meses com o Contos completos da Flannery lá em casa, totalmente abandonado: não quero nem ver a suspensão que vou tomar na biblioteca.
Eu tenho esse lá em casa. Quem sabe possa te emprestar – quer emprestado? Assim você fica despreocupado quanto aos prazos, multas etc.
Quero, claro, Caddy.
Na mosca. Ela gargalha. Um milagre: ela sacou o que eu quis dizer: que eu sou o Benjy, o tio Maury.
Você cuidará bem dele... Bandini?
Porra! Mais direto impossível. E tão, tão melancólico: será que ela chorou com o Fante? Se até eu, meu deus, quase chorei com esse filho da puta...
Caddy, Caddy, é claro que sim.
Ah. Tudo bem, então.
Sorrimos um para o outro. Permanecemos em silêncio por algum tempo. Ela tem um Chandler nas mãos e, distraída, durante alguns instantes lê, ou tenta ler, ou finge ler algumas linhas, ainda com um resto de sorriso conservado no rosto. Marlowe, eu me digo, belo nome. Philip Marlowe, na surdina, levando o amigo homicida ao aeroporto clandestino, ou improvisado, ajudando-o a fugir para o México, a se livrar dos tiras, e, em outras circunstâncias, em outro livro, ele encurralado em seu escritório por um cliente furioso, que está armado ou não, que leva uns capangas a tiracolo ou não, não me lembro mais. Enfim: seus olhos percorrendo as linhas que outrora percorri. O pequeno grupo mundo afora que compartilha reminiscências de um mesmo livro, que sabe, por exemplo, quem é Philip Marlowe ou o que é soma ou por que o Benjy não desgruda da cerca que separa a propriedade de sua família do campo de golfe bem ao lado etc.
É engraçado, digo a ela então, do Vagabundos Iluminados, por exemplo, só me lembro de uma cena: os três, ou os quatro, descendo de modo alucinado um monte de terra, uma colina, uma montanha, não sei, mas tão rapidamente que seus pés mal tocam o chão. Só isso, mais nada. Talvez estivessem com as mochilas às costas, talvez fosse noite ou chovesse, não sei. Não lembro. Não faço idéia, aliás, do enredo do livro. Do Crime e castigo, o grande abre-alas, pra mim, do horror e da náusea e da dúvida, que li em janeiro de 2005, e lá se vão seis anos, recordo-me muito bem das circunstâncias de leitura: estávamos no litoral, e eu levava, todos os dias, o livro para a praia, me ajeitava sob o guarda-sol e, com os pés metidos na areia fresca, ficava lendo até irmos embora. A parte em que interrogam Raskólnikov se liga de modo obscuro ao corredor da pousada em que estávamos hospedados: talvez eu tenha lido essa parte lá, no corredor, numa rede ou o que o valha. Mas o fato é que, mal penso naquele corredor e na vista que ele nos oferecia do terreno baldio cheio de escombros em frente, imediatamente me vem à mente o interrogatório informal que os policiais realizam com o protagonista à cata de contradições etc. Incrível eu me lembrar disso, não? Do enredo mesmo sobrou pouca coisa, mas de qualquer maneira ficou algo, as linhas gerais: Raskólnikov seguindo a velha pelo mercadinho, ou pela feira, ele matando as duas irmãs, ou noras, com a machadinha, a outra, a segunda vítima, mera testemunha, que não tinha nada a ver com a coisa, se escondendo debaixo da cama (mas aqui, talvez, a memória me traia), depois ele, nauseado, depositando o fruto do latrocínio sob uma pedra etc. Do restante dos personagens mal me lembro, Smidrigáilov [N.: o certo é Svidrigáilov, heh] talvez seja o nome de algum parente ou benfeitor do protagonista, não sei, mas enfim: lembro-me com clareza do final, da redenção do cara, do seu arrependimento, das visitas da prostituta (não me leve a mal, realmente não me lembro do nome dela!) ao presídio e, por fim, ele dizendo que, com a ajuda dela, com a sua misericórdia (seu amor?), setenta anos passariam como sete, ou quarenta anos como quatro, algo assim. Haha. Falei muito, né? Perdoe os meus gaguejos. Apesar da fala claudicante, aos trancos e barrancos, poderia continuar por muito mais tempo com os exemplos, veja você, do que fica e do que é esquecido dessa prática solitária, dispendiosa (ao bolso e ao relógio) e no entanto, no fim, tão milagrosa... Mas não sei se você gosta de falar sobre li-te-ra-tu-ra: tem gente que não curte. Não faço idéia, aliás, do motivo de ter trazido essas reminiscências à baila. Poderia ter ficado calado, mas foi algo que me veio e –
Que nada. Adoro conversar sobre livros. Nossa trajetória como leitores é muito semelhante: eu me vejo no seu discurso. Eu sei aonde você quer chegar. A gente leu Faulkner, porra. Lemos o Bukowski pela perspectiva certa, suponho, quer dizer, chegamos mais perto do que o velho quis transmitir do que o resto dos idiotas: olhe para mim. Você leu o Capitão...? Sim? Então não falo só por mim. Brigou e perdeu? É? Foi humilhado? Bullying coletivo? ... A gente pode falar sobre isso depois, também tenho as minhas histórias... Bom, voltando: curto muito conversar sobre livros. O que abomino é a afetação asquerosa de certo tipo de gente: por exemplo, sabe o Fome, do Hamsun? Outro dia, na faculdade, um carinha na primeira fila sacou, com espalhafato, esse Hamsun da mala e começou, então, a mostrar aquela capa horrível da Itatiaia pro pessoal ao redor, sempre, juro, mirando o douto com o rabo do olho, como que pedindo ei, prôfe, me pergunte em que parte estou, ou: me pergunte o que estou achando. Sabe? Daí, bum, foi só o douto dar corda e o carinha passou a vomitar uma biografia resumida do Autor, prêmio Nobel aqui, nazismo acolá etc. Hahaha. Odeio isso. Mas, reitero, o que estamos fazendo aqui é diferente. Mas voltando: legal você ter falado do Kerouac. Lembro que gostei do Vagabundos iluminados. Admito, contudo, que dele também retive pouca coisa, quer dizer, nada, assim como você: tinha catorze, quinze anos quando o li, não é de se espantar. E quanto ao resto dos Dostoiévski? Leu? Restou algo?
Li. Não sobrou nada.
Hahaha.
Ela vê as horas, ainda se contorcendo de rir por conta, suponho, da minha resposta seca e definitiva (Dostoiévski deve ser diferente para ela: talvez o Crime e castigo nem seja o seu livro preferido dele), e diz que já, já precisa ir.
Escute, eu digo. Como não temos muito mais tempo, podemos, num bate-e-volta, continuar com aquela brincadeira do início? Perguntas e respostas rápidas, e aí eu terei a certeza.
Hein?
Mantenho-me calado. Ela assente. Não sei se entendeu, se sacou a minha intenção.
Entendi, ela fala por fim. Manda.
Entendeu ou entendeu?
Entendi.
Sorrimos. Então, empertigando-me, começo:
Você crê em deus?
Não.
Você confia no ser humano?
Não.
Quais são os seus objetivos? Na vida, digo.
Não sei.
O que é a vida?
Não sei.
O que você sabe?
Pouca coisa.
Costuma sair de casa?
Não muito.
Escreve?
Sim.
Você se considera uma boa pessoa?
Sim.
Você acredita na vitória?
É claro que não, não seja bobo.
Você chora?
Sim. Você também, pelo visto.
Silêncio. O Arturo Bandini em mim fala por mim:
Excepcionalmente. É que encontrei a garota dos meus sonhos, você.
E então, como não, eu acordo. (-:
Terça-feira
O desespero azul de um terminal vazio
O abismo que o recém-nascido desconhece – e também
eu
O desabamento do céu da gengiva
Corrimentos vaginais na calçada
Que me importa o formato de seus pelos púbicos, se
Eu posso rasgar o aço com minhas próprias mãos
Os livros e os bons filmes e os dias de céu limpo e
as vaginas sedentas por
sexo não me confortam
Um mundo imundo – um cérebro-intestino
Os ônibus carregando os trabalhadores de volta para
casa,
[os bebês dormindo, bajulados,
[vivendo, esquecendo, esquecendo...
O Universo foi calculado errado...
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Pedaços de ilusão – um buraco sem fim
O câncer corrói as entranhas do velho decrépito,
que geme, sozinho,
A aritmética do lixo, das formigas carnívoras
Pra rabuda que passa, sou menos que nada
E uma vagina no umbigo e na testa
Além das nuvens, Júpiter, Saturno, os marcianos
Esperando uma resposta sem sentido
Resignado, o homem-cão fecha os olhos diante do
choque
inevitável – a verdade, a
libertação
Porque as drogas da farmácia não podem curar a
dor...
Embriagado, as luzes de néon confundem-me e
Ainda não inventaram um deus para sua solidão.
(Poemas de 2009, escritos no bar, a partir da "(anti-)técnica dadá-surrealista Cadavre exquis". Ao Hamilton, pela parceria e a permissão para que eu republicasse os textos aqui, um muito obrigado.)
Quinta-feira
2) Sete disciplinas cursadas. Apenas dois buracos na grade. Tranquei o Leituras Específicas da Literatura Hispano-Americana por não estar a fim de encarar uma turma com apenas seis colegas. A intimidade seria grande demais, eu seria obrigado a participar do debate. Não me sentia preparado pra isso. De resto, pouquíssimas faltas. Consegui acompanhar muito bem as obrigatórias relacionadas à Lingüística, apesar de todo o horror. E pela primeira vez, diga-se, fui a todas as aulas de uma disciplina, se bem que os motivos para isso não foram acadêmicos, vide o post anterior.
3) Estou, de novo, empolgadíssimo com o semestre seguinte. Minha média neste que termina é de, vejamos, uns oito, haha. Isso, se confirmado, elevará a minha média geral e permitirá a minha matrícula, sem sustos, em optativas como Literatura Russa e História da Palestina Moderna. Me inscrevi também, com prazer, em outros cursos interessantíssimos, como História do Pensamento Árabe e História do Pensamento Chinês – mas estes, acho, não terão muita procura, e conseguirei me matricular de boa. Enchi a grade (só uma obrigatória desta vez), pois sinto que entrei nos trilhos e agüentarei o tranco.
4) Caminho, enfim, a passos largos na eliminação dos créditos ainda obscenamente numerosos... Mas não devo olhar para trás. Vejo uma luz no fim do túnel... Quem sabe possa manter esse ritmo até o fim... Quem sabe...
Sexta-feira
Eu digo Sim
Sim
Sim
No meu peito, sim. No meu crânio. Sozinho na biblioteca, me retorcendo e lamentando em silêncio, eu digo e repito, batendo na testa e sorrindo, tétrico: Obrigado por ter me feito feliz durante este semestre inteiro…
(E é isso. Mais um trabalho e uma prova pra fazer… Depois, tempo pra ler o Morte a crédito e o Sherwood Anderson… E começar, talvez, o Arco-íris da gravidade… Com a alma cinza e sendo feliz só nos sonhos e durante a leitura dos Eisner... Enquanto ela caminha pelas ruas de Dresden, segue sua vida acadêmica, sua existência paralela à minha, almoça com os pais, desfaz as malas, fala em alemão com os primos sentados em seu colo, vai a restaurantes com seus amigos nativos, lê Goethe à noite na cama e: se lembra de mim. Talvez. Ocasionalmente. Eu me lembrarei dela.......)
Quarta-feira
De volta. Conexões restabelecidas, circuitos novamente pulsando o desvairado vazio da existência. De volta aos coletivos de sardinha, às gralhas de esquerda de camisas sem estampa, aos livros a tiracolo lidos sem entusiasmo e sem profundidade. Mais uma vez a posição de sentido ante os generais infames maquiados de benevolência e propósito. De novo os esporros imaginários no rosto das donzelas cellistas de braços vigorosos e brancos. O vento frio fustiga a minha cara e os olhos cerrados tentam segurar a torrente que vem em ondas espaçadas - ao fundo os carros passam, e os ônibus, com olhares oblíquos os velhacos, os engravatados, as aposentadas, as criancinhas sondam o amontoado de átomos amaldiçoados e fogem. A caminhada dos dias medonhos, os dias medonhos.
II.
Tremer diante dos doutos e, mais que isso, aterrorizar-se perante uma mera aglomeração de pessoas, uma mera concentração de gente que não leu os livros que li ou sequer pensa o que eu sempre penso dentro do meu quarto escuro e fechado no eterno silêncio das noites deprimentes, rostos desconhecidos, insignificantes, que adquirem força quando juntos: todos contra mim, eu contra o mundo, sozinho na batalha de todos os dias quentes, sozinho, as noites de reflexão e leituras, quando eu sou eu, perdem a importância, o sentido, e eu sou apenas mais uma miniatura de gente sob o sol e o treme-treme dos ônibus, na carteira, e quando abro a boca diante deles, ante a pergunta do douto, o que me escapa torna-me ridículo, sou humilhado por mim mesmo, sempre humilhei a mim mesmo mais do que qualquer bombadinho e suas tentativas inescrupulosas, minha voz rouca, naquele dia, além de rouca saiu trêmula, e na frente dos olhares curiosos eu só pude responder de modo envergonhado o que sempre tive orgulho de possuir, a paixão pelos livros, o sentimento de gratidão pelos autores que me situaram neste mundo bizarro, me incluindo nele, Kafka, eu respondi, e Hesse, além do Bernhard, mas ele, o douto, não ouviu, ou fingiu não ter ouvido o nome Thomas Bernhard, diante dele só pude balbuciar nomes sem convicção, e a culpa afinal não é dele, nem deles, os alunos de olhos curiosos, é minha, a culpa por eu ser uma aberração é minha, mas isso não tem mais importância agora, eu tremo e choro por dentro lá fora, diante dos olhares de todos eles, balbucio incoerências, mas aqui dentro obtenho conforto ao lado de vocês, irmãos gauches, personagens da ficção, sombras do passado bonito, prefiro mil vezes vocês aos buracos humanos que não são meus irmãos, aqui não existe a mediocridade e posso, aqui, ser feliz sem emitir uma palavra.
III.
bêbados como eu eles perguntam e querem a resposta, aguardam impacientes, os escarnecedores, pela resposta, a resposta - e a minha resposta é/ enfileirados, tolos sobre tolos, tolos à frente e às costas de hordas de tolos irremeavelmente perdidos, eles medem a minha vida com a régua deles e, indiscutíveis, suas regras são totalmente aplicáveis ao meu percurso, pensam eles, ao meu caminho, particularidades insignificantes, as minhas - pra eles -, que em flashs e relâmpagos invadem a minha mente, aqui, agora: a Camila pulando pernas e correndo atrás de mim, os peitos da Diana no ônibus da tchurma da quarta, o Hipoglós na cara e os gritinhos das garotas na arquibancada, os castelos de areia com túneis em cruz, as bajulações da Mônica, e da Rai, e da Maria Isabela &c., o Alysson, o Manuel e eu, bons amigos, procurando por vastas vielas e quebradas arborizadas o ônibus de retorno ao porto seguro de nossas vidas regadas a peladas e desenhos e voltas de bicicleta pelo quarteirão... mas eles querem a resposta à pergunta, o ponto de tangência é inquestionável, pensam, dizer sim e não divide o normal do loser - sou posto cara a cara com a normalidade e esmagado por ela, eu, "o filho torto, a ovelha negra que ninguém confessa, o vagabundo irremediável da família" (Nassar)... cospem e resisto, resistindo penso no meu grande amigo Alexandre Gouveia Lois, perdido agora, resistindo contra o mal e a ignorância sei que sou grande, maior, até, do que admito a mim mesmo, diante dos olhares sardônicos, superiores, arrogantes, diante de tanta tolice e cegueira, quase, veja só, quase me convenço de que, de fato, enxergo a luz, forte, acalentadora, emocionante. enfim. a resposta, a minha resposta, que dou a eles na hora, sem premeditação e consciência de sua exatidão, é o silêncio absoluto: sem querer apontei a direção, no silêncio deixei a pergunta ecoar e ecoar e ecoar, para que percebessem, amém, o quão ridículo ela era: será que eles viram, eles compreenderam, eles conseguiram enxergar o que enxergo tão bem desta estrada de linhas tortas, em companhia dos fantasmas dos grandes livros que li e dos vultos das crianças tímidas, já tão cedo desajustadas, e dos velhos de olhares vazios e resignados, sujos, rugosos e... calmos, tão calmos?
IV.
li-te-ra-tu-ra, diz um jovem espinhento na primeira carteira, as pernas dobradas em cima do assento, do seu discurso pausado e circunspecto fisgo a palavra literatura duas, três vezes, na quarta olho pros lados e os vejo com livros nas mãos, tão bonitos, meus colegas de classe, tão distintos com seus óculos coloridos, seus ombros tatuados à mostra, seu orgulho vegan e sua boemia universitária, literatos com seus livros nas mãos, e eu os fito de olhos semi-cerrados, entorpecido e diminuído, estamos lendo e discutindo A legião estrangeira, e a cada aula um batalhão de leitores cospe sua interpretação, traz à tona seu vasto conhecimento listando um ou mais títulos afins, e eu, sentado também com um livro à mão, assisto, indistinto, ereto, à prostituição da literatura, da minha literatura, como é horrível escutá-los dizendo literatura e segurando seus livros novos em folha, como é lamentável deparar-me com notícias de saraus, eventos literários e noites de autógrafo, eles dizem que leem e dão, em bando, essas risadas afetadas, falam desse jeito repulsivo, olham-me desse modo condescendente, como se lamentassem meu isolamento deliberado, coitadinho, pensam eles, imagino, não lhe resta nada senão encarar as árvores e interagir com os cães, e, em pensamento, eu, a cada dia, decepo seus membros e piso forte sobre suas cabeças, dizendo, em pensamento, a literatura, minha ruína e redenção, senhores, também deveria fazê-los interagir tão somente com os cães e encarar as árvores, mas eles não entendem, eles leem e dizem gostar de literatura mas não entendem nada de merda nenhuma.
V.
A frenética perseguição ao condenado que foge. Gostaria de gritar que não sou eu quem procuram. Arrastando-me pesadamente, a minha voz não sai. Perseguem-me. Estou fugindo.
Sexta-feira
Não só a morena uspiana dos olhos mais assustadoramente azuis que já vi - os mais nítidos e distinguíveis do verde - que, gesticulando com a mão direita, franja ao vento, dava respostas precisas a perguntas comuns, ficava em silêncio pelo tempo ideal e voltava a falar carregando as palavras de uma sinuosidade maravilhosa, mas também: a velha de cabelos curtos com um cigarro na boca, debatendo-se com o jornal, em pé, no ponto de ônibus - a única da fila, vultos ao redor, a chuva e, por qual motivo, o meu sorriso de apreço e o vislumbre violento de uma certeza de que já não recordo (imprecisa, absoluta). E: a gorda truculenta, o buraco humano, pisando em poças d'água, cínica, rude, abrindo passagem sem pedir licença, desdenhando... Viajando: nos buracos: os executivos ocupando toda a calçada, cuspindo no meu pé, o cara que, de ombros enrijecidos, ou o fraco sou eu, trombando violentamente em mim e nem se virando pra se desculpar - dele só vi o quepe: desde lá a imagem da maldade, da intransigência: o resíduo perene na consciência, filho da puta (Bukowski: "esses são os mortos/neblina e fumaça/o fedor no ar/os leprosos")... no infortúnio: os mendigos da Liberdade, dormindo no chão cheio de merda de pomba, o cara sem pé, de rosto vincado, subindo o desnível do terminal, a garota sem perna, de muletas, pegando a fila preferencial, os óculos desalinhados, os guarda-chuvas quebrados, tantos, tantos... na beleza: a Winnie Cooper do trem dando tchauzinho e sorrindo, porra, a garota mestiça, linda, fazendo gracinhas pra mim diante do olhar desconfiado da avó encarquilhada, em ruínas, uma universitária dançando na plataforma da estação Liberdade, sorrindo, fingindo não ver os meus olhares encantados ou
Voltando para: sexta, 4/03. A chuva. A truculência. A velha e a morena. E: a professora de Cultura e civilização alemã, Dorothee, mais bonita que a Sharapova, de traços mais delicados e cabelos mais escuros, falando e se arrastando no portunhol enquanto, nervosamente, alterno meus olhares ora para o primeiro buraco da folha de fichário, em cuja beirada traço riscos com o lápis, ora para os olhos e o nariz e a boca e os braços dela... E: eu falando por uma hora ininterrupta na terapia com uma fluência que desconhecia, num tom plenamente discernível, citando a dona de um sebo da Teodoro sampaio descrita em Memória de elefante e que eu decidamente conheci na vida real: o cabelo crespo, os olhos injetados, o celular sem fio na mão, a arrogância, o total desinteresse em ler os livros que vende etc. E: a guardinha da biblioteca virando o rosto enquanto remexo a prateleira de hqs "adultas", Crepax, Crumb, Burns, Manara et al. No banheiro, resquícios de merda alheia na privada e pouca, realmente pouca merda na minha cara que, no espelho, deus pai, nem parece tão má, não mesmo. E, por fim: a chuva. A chuva. A chuva, caralho. A minha cara molhada enquanto caminho até o terminal tropeçando nas poças e cantando na chuva o milagre, o milagre.
Tudo isso (não perceberam? Culpa minha). Tão pouco. Tão, tão pouco, mas o suficiente para, depois de dez meses, eu quebrar o silêncio*: você sabe, o tremular das mãos, as marteladas no cérebro, o riso e o choro incontroláveis, a necessidade de por a coisa pra fora. Pretendia ir ao bar do chinês hoje pra fechar o dia em grande estilo: saudade dos mesmos velhos rostos simples e da atmosfera triste, da música setentista e do ar frio da noite. Resolvi ficar e ler o Eisner, mas... vim escrever aqui. Ontem, quinta, foi um dia difícil, angustiante, sabe. A falta de propósito da minha vida. Algumas contas de matemática simples que me botaram pra baixo. Aulas vazias e desinteressantes. O fracasso. A solidão. A possibilidade de suicídio, estável em uns 5%, subiu pra vinte, por aí. Saltar de um prédio não parecia nenhuma loucura. Do Notas do cotidiano II, por Henry K., a lápis e borrado pela garoa (a tristeza e a verdade não são perceptíveis senão para mim mesmo, óbvio):
Hoje,
infelizmente,
é um mau dia
Eu, eu escrevi isso ontem, nos bancos de pedra da filosofia.
Hoje, termino este texto difuso e demasiadamente confessional assim:
Vida? Sim? Sim... com todos os reveses, sim sim sim
*Só pra constar, tenho escrito com regularidade no Impressões de um cão, blog protegido por senha e com textos esboçados e sem revisão. O longo hiato restringe-se a este blog.
Domingo
Quinta-feira
Pauladas e gritos na rua. Espancamento cruel, sem chance de defesa. Dois negros cercando outro negro, gritos animalescos, pedidos inúteis de clemência, Jesus, o Jesus sobre a dor e o silêncio da madrugada estuporada e o tiro final, o fim de papo, o retorno do rumor constante – uuuu... – da cidade adormecida, flutuando, revirando, indo e vindo no sono que não volta, os passos claudicantes dos homicidas na esquina, eu abro os olhos e contemplo com horror a minha vida –-
Thurn und Taxis. Este é o sinal. Relato em minúcias o pouco que me sobra. Thurn und Taxis, Tristero. Post-mortem e o grande sonho da minha vida. Estamos fugindo paralelamente – eu sou o narrador onisciente e vejo tudo de cima... –, mas num acaso nos encontramos numa cabine de descanso ao fundo de algum parque no meio da jungle. Ela com medo, temendo em silêncio. Eu sei quem a persegue. Também fujo da mesma entidade. Estamos sozinhos, e eu digo, Thurn und Taxis, esperando por sua reação. (...) Eles vêm numa ambulância, sem chamar atenção, fingem ser enfermeiros, os transeuntes passam. Puxam-na para baixo. Ela segura minha mão com firmeza, e eu sustento seu corpo fora do alcance dos filhos da puta. A cólera deles. A impiedade. Eles são meras engrenagens e apenas fazem o que tem de ser feito. Lágrimas – não, não de sangue – rolam abundantes sobre nossas faces retorcidas... Só tenho consciência delas, das lágrimas, e da força com que tenho que segurá-la, ela, a desconhecida, o meu amor. A necessidade, a cumplicidade, o pavor. A mão dela e a minha, grosseiramente unidas. Uma seringa pica-lhe a bunda, o êmbolo é esvaziado. Aids, ebola, um zigoto demoníaco. Aos poucos o branco ocupa toda a cena, preambulando os créditos finais. O silêncio está em tudo. Levanta-se do chão. Acordo e –-
Meter uma grande bala no meio do grande excremento. Contar as moedas no bolso furado pra humildemente comprar mais um romance mofado. Chutando pedras olhando pra baixo caminhando pelo labirinto de olhos fechados o gosto acre nos bolsos sebos e bancos de concreto, vitrines e olhos ardentes sorrisos nas nucas cospem nos pés me empurram, os grandes buracos humanos. Caddy Caddy, a velhice irritante, escrevo pra mim: linhas tortas, errantes. Estendo a mão, pego o Cortázar, agradeço o Foer, abençoo a Nicole. Leituras da noite, à noite. Abby Black, não é nenhum absurdo, vai dizer que. Cem dólares! Caddy Caddy/ me abraça me beija,/ me dá a almofada,/ eu choro e eu vejo/ o fogo no espelho,/ eu ouço o telhado e o/ fogo no espelho/ –-
PAUSE. REWIND. REWIND. A esperança de.
Sexta-feira
Domingo
Sábado
Quarta-feira
Sexta-feira
Quinta-feira
"(...) A única coisa que já tenho definitivamente na cabeça, dissera a Gambetti, é o título Extinção, pois meu relato só existe para extinguir o que nele vem descrito, extinguir tudo o que entendo por Wolfsegg, e tudo o que Wolfsegg é, tudo, Gambetti, você me entende, realmente e efetivamente tudo. Depois desse relato, tudo que Wolfsegg é tem de estar extinto. Meu relato nada mais é a não ser uma extinção, dissera a Gambetti. Meu relato simplesmente extingue Wolfsegg."
BERNHARD, Thomas. Extinção. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 147.
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Terça-feira
Segunda-feira
Terça-feira
Segunda-feira
Quinta-feira
Já caguei aqui. Vou ao banheiro dar uma mijada e volto logo.
Sábado
- Volte para a cama, meu bem. Vou procurar alguma coisa - eu disse. Remexi uns vidros e caixinhas na caixa de remédios. Caiu um monte deles na pia.
- Onde está a aspirina? - perguntei. Sacudi mais um pouco e caíram outros. Não me importei. As coisas não paravam de cair."
CARVER, Raymond. "Vitaminas". In: Short cuts. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p.50.
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O fragmento em si não vale nada, mas, deus meu, diante da história completa e do resto dos contos, este final-síntese é arrebatador. Há tempos não me deparava com algo que me fizesse repetir, surdamente, ao final, um "caralho, isto é grande, isto é lindo - é genial".
Quinta-feira
Terça-feira
Sábado
Segunda-feira
Domingo
(Chega. Escrever mais é insistir no subjetivismo imprestável. Não leiam esta merda. Tchau, Hélio de hoje.)
Quinta-feira
O vazio.
Domingo
Sábado
Domingo
"O sangue jorrava, jorrava, jorrava, e os livros e anotações perto do cadáver iam encharcando-se da seiva de seu dono, o revólver, ainda entre os dedos rijos e cada vez mais gélidos do morto, ia, mais e mais, arrefecendo após o disparo último, o disparo da salvação, o disparo da liberdade, o disparo do voltar-ao-pó."
"Uma abstração surgiu-lhe de repente, e enquanto anotava os seus insights malucos na folha que trazia a tira-colo, Henry K. bradou alto, como um princípio, uma certeza: 'a degradação e a vergonha pessoal que deveriam permanecer no banheiro invadiram as ruas e infiltraram-se por todos os cantos de todas as casas, corrompendo o que antes era inocente, degradando o que outrora fora belo. Garotas dando o cu para permanecerem virgens, padres abusando de crianças durante o intervalo dos sermões, trabalhadores humildes suando o mês inteiro pra pagar a prestação do celular de última geração, burguesinhos matando aula pra fumar maconha, a esculhambação do padrão de beleza, sífilis, aids, assassinatos, capitalismo, corrupção, palavras vazias, BBB, luxo, poluição, destruição, guerra, morte, morte da arte, morte, morte, morte da consciência, morte, morte do bom-senso, morte da cultura, morte da Humanidade... Progresso mesmo? A coisa não está certa. Diante da impossibilidade de mudança, só resta a fuga. Como ratos, fujamos, nos escondamos, cometamos suicídio. Antes que seja tarde. Antes que as tetas grandes da rabuda sem cérebro suguem a gente, ou o que resta de nós. Oremos por dias menos sujos.'"
"Bateu uma punheta pra Elizabeth Taylor, em nome dos bons tempos, e foi se aprontar para sair."
Credo.