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Quinta-feira

Não me acho. Estou perdido. Falta ânimo pra tudo, e nada faz sentido. Trôpego, com os olhos atordoados fitando o chão, o céu ou um velho encarquilhado com ares de louco, caminho em meio à multidão, arrasto-me, sozinho e de forma resignada, em direção à morte, ao fracasso, à insanidade. A literatura é a culpada. Minha vida é uma curva decrescente em direção ao abismo, caminho todos os dias sobre uma tênue linha – a linha da sanidade. Se por um lado já adquiri a prática e marcho de modo razoavelmente resoluto, tendo quase a certeza de que não cairei (por enquanto...), por outro cada maldito dia é-me penoso, e é preciso despender grandes quantidades de energia para equilibrar-me sobre o fio. O grande responsável pela minha derrocada, o início de tudo foi, adivinhe, Crime e Castigo, lido em janeiro de 2005. Eu era, então, um adolescente de quinze anos estudioso e ajuizado, destinado a seguir, dali ao túmulo, a vida que os meus pais e a maioria das pessoas levam. O choque foi terrível, como é de se imaginar: eu havia descoberto que as páginas dos livros não eram apenas páginas, o mundo não era constituído somente por resoluções de problemas matemáticos ao fim da tarde e jogos de futebol na tevê nos fins de semana. A literatura instituía novos mundos e questionamentos, trazia à luz a complexidade do ser humano e o sem-sentido de tudo. Nunca mais fui o mesmo. Não. Ela me corrompeu, me tirou dos trilhos, trouxe a infelicidade... Expandiu a minha mente, apontou-me o caminho mais verdadeiro a ser percorrido: o do conhecimento. Já não é mais minha ambição acumular riquezas, casar e ter filhos, trabalhar e trabalhar para comprar o carro do ano, os óculos escuros mais extravagantes e o celular mais moderno. O ideal de felicidade da maioria das pessoas já não é mais o meu. Todos à minha volta querem o que eu abomino, todos são demasiadamente efusivos e superficiais, todos se vestem bem demais e não vêem que nada disso importa para o movimento de rotação de Saturno e para o mendigo que está passando fome e frio e que só quer um cachorro-quente e um cobertor e sapatos menos furados. Tolos. Eles cultivam a ignorância, freqüentam academias, vão à igreja e, tão logo cruzam o átrio, pisam nos miseráveis. Eles não sabem admirar as árvores, o canto dos pássaros, ao menor prenúncio de chuva praguejam contra os céus. Não suportam o silêncio – falam sem necessidade, enchem os meus ouvidos de banalidades. Todos que me cercam não conhecem o caráter libertador da Arte e todas as veredas da consciência... É tudo uma grande piada. O gênero humano me enoja. Arranha-céus. Congestionamentos. A reificação do homem. Homicídios a cada minuto. A destruição do planeta. Qual o contraponto de tanta miséria e degradação e do ir e vir mecânico atrás do dinheiro, da fama, da felicidade que, grosso modo, nunca é encontrada (ou melhor: nunca é suficiente)? Os dias de céu limpo e a brisa na tez e os filmes de Bergman e os bons livros e as poucas pessoas bondosas desse mundo tão vasto não me confortam. Tampouco o olhar encantador das crianças, a interação entre mães e filhos e a consciência de que, entre seis bilhões de pessoas, ninguém vê o que eu vejo ou pensa o que eu penso dentro do meu quarto escuro cercado de livros não lidos e trabalhos acadêmicos esquecidos – sou único e não sou ninguém. Embriagado, à porta do bar, suporto, intrépido, os olhares repreensivos das pessoas que passam, voltando do trabalho. Penso, penso. Bebo mais um gole da minha cerveja enferrujada, trago violentamente o cigarro contrabandeado, ansiando pelo câncer que corroerá as minhas entranhas. Meus olhos vermelhos divisam a comédia humana à minha frente e não agüento. Eu, eu rio do mundo. Sozinho. E pergunto: qual o sentido de tudo? Por que os jovens falam tanto, e como será o meu futuro? Como suportar o cotidiano cinza se ainda não tive forças para estabelecer qualquer espécie de objetivo para a minha existência? Ao longo da minha vida expeli toneladas de excremento e ingeri um monte Everest inteiro – e para quê? Farei vinte anos este mês, novembro. Nunca trabalhei, e sou, até hoje, dependente do dinheiro que os meus pais colocam, sem uma palavra, sobre a minha mesa. Anseio pelo ócio, quero ser livre pelo máximo de tempo possível para ler e observar e pensar, mas ao mesmo tempo pesa sobre as minhas costas (e a de todos aqueles que buscam a sabedoria e se devotam ao conhecimento) o fardo da tradição universal: só é digno quem trabalha – e quanto mais cedo, melhor. Quem assassina suas horas de vida trancado em um escritório, sem tempo para pensar – esses merecem o orgulho da família e os olhares admirados dos transeuntes, que, discretamente, contemplam seus dentes brancos, sua roupa asseada, seu sorriso na cara. A solução é essa? Fechar os olhos para o intangível e deixar-se engolfar pelo hábito (a realidade inescapável...)? Enlouqueci, então. De fato. Dou os primeiros passos por um caminho diametralmente oposto, e o fim da trilha não é outro senão o fracasso financeiro, os trapos sujos, o convívio com os ratos. Nada mal. Minto: gostaria de viver em condições minimamente decentes, e temo, sim, o futuro (um covarde, não passo de um...). Conjecturar sobre o nascimento das estrelas não me exime totalmente dos pormenores do cotidiano. Comer, dormir, irritar-se com o engarrafamento. E preocupar-se com o futuro, que tinha tudo para dar certo, mas tende, agora, ao erro. Afinal, o que farei com um diploma de Letras em mãos? Dar de comida aos cães, emoldurá-lo em um quadro cheio de floreios e pendurá-lo na parede do quarto – a representação em letras garrafais dos anos perdidos na graduação a fitar-me todas as manhãs? Dormir debaixo de pontes, depender dos meus pais até os quarenta, entregar-me a ofícios braçais, as expectativas são as piores possíveis. Porque a minha fala é um balbucio permanente, meu grito é um fio de voz, minha argumentação, inexistente. Não sirvo pra ser professor e não aceitar-me-ão como tal. As demais possibilidades de emprego também não me iludem, porquanto são poucas e, conseqüentemente, muito disputadas. Mas o buraco é mais embaixo, e diz respeito ao momento atual: faltas e mais faltas e uma procrastinação inconseqüente... Minhas notas andam péssimas, já desisti de uma habilitação e – chega. Meus cálculos mais otimistas mostram que me formarei somente em 2013. É pra rir? Estou ao léu, sem velas ou remos, afogando-me no mar de dias que vem e noites que vão – tão rápido! Minhas lágrimas confundem-se com as águas que me negam o último suspiro e do horizonte aproxima-se, de modo lento e constante, flutuando, uma inscrição em letras néon verdes: O FRACASSO. Fecho os olhos. O atordoamento, o vazio, o ócio, a insanidade. E a covardia. Apago as luzes e vou pra cama, porque amanhã é mais um dia... ia.... i..... a.

O vazio.