Pés descalços sobre o piso frio. O cigarro na mão direita, queimando. Queimando. Tudo passando, as felicidades não vividas e as oportunidades perdidas, cada vez mais longe, longe. Sem segunda chance. Queimando. Estou. Meus olhos e cérebro e pulmões. Minhas mudas de roupa, meus pôsteres, minhas confissões, as fotografias de um passado que não é meu. Minha vida se desintegra diante da janela gradeada e dos vultos que ouço lavando pratos e batendo janelas e fazendo sexo e rindo com amigos e amigas à mesa da pizzaria deste bairro provinciano. Usem minhas cinzas como adubo, vendam meus livros por quilo. Mijem sobre a minha sepultura e esqueçam meu nome rapidamente: quero voltar a ser o que era antes de ser concebido. Antes de ter nascido para a morte. Ser o fogo e, de uma só vez, todas as pessoas com quem cruzei na rua ou leram os mesmos livros que eu.
(Chega. Escrever mais é insistir no subjetivismo imprestável. Não leiam esta merda. Tchau, Hélio de hoje.)
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