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Segunda-feira

Resquícios do dia, o trem-bala do cotidiano. O carteiro sob o sol, o treme-treme do ônibus, e o seu ruído, o garupa da motocicleta estacionada escarrando forte sobre o meio-fio, o mascar de chiclete fortuito, os olhares perdidos na condução que passa em sentido contrário, a perda da inocência da garotinha alva, seus batons e botas rosas, seu saracoteio, o grotesco da maquilagem sobre os seus traços infantis, e a despeito de tudo ouço-a gemer, "não, mãe!" - mas tudo, tudo, ah, já é cinza e amorfo, indistinto e insignificante diante do livro que tenho nas mãos, e que abro e fecho, atônito, incapaz de ler por tempo mais prolongado: "Isso vinha das profundezas e havia chegado"... Detenho o olhar na calçada esburacada e sussurro, cheio de comiseração pelos que preferem fechar os olhos: o abismo, a genialidade pura, enveredar por esse caminho é penoso, mas uma das poucas alternativas para se chegar à clareira primeva: à Verdade... O Viagem ao fim da noite está engolindo tudo: minhas feições cheias de ternura e compreensão retorcem-se e propagam o horror - mas isso, infelizmente, não é contagioso.