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Terça-feira
Os filhos da puta são cruéis quando estão em grupo. As vadias das mães e os pais asseados sem dúvida não impuseram qualquer espécie de limites às suas crias, não contaram, mesmo sob o dogma de Cristo, quem é e como deve portar-se o bom homem, o espirituoso e sábio etc. - e aconteceu o que aconteceu. Não os culpo, os pais, eu mesmo não fui convincentemente instruído, nos mínimos detalhes, pelos meus, nunca consegui divisar, com as palavras deles, o outro lado da vida, à parte os estudos, o dinheiro, a honra, o futuro. Os livros, eles conseguiram preencher as fendas, já disse isso antes. Enfim: eu era um monstro e meu horizonte era o chão, e tão somente por isso fui obrigado a percorrer o caminho da humilhação, das ofensas, da subjugação. Não foi escolha minha. A merda toda não foi justa. Não fosse pelo inferno, certamente eu não prezaria, hoje, tanto pelo silêncio, pela discrição, não respeitaria os seres humanos como pequenos grandes milagres da natureza e do acaso, suas entranhas e suas consciências não me seriam tão claras e tão absolutas. Não fosse pelo inferno, eu não teria descoberto os livros. Hoje, depois de ter passado por tudo, passado, acho que tendo a crer que não aconteceu nada de mal, que éramos todos inocentes, que não houve consequências muito graves, cicatrizes tão profundas por ter sido pisoteado todos os dias, humilhado, calado, esbofeteado por palavras e atos, não-atos. Nada como o tempo e o distanciamento que ele nos oferece: daquela época tenho uma visão indiferente, estranhamente indiferente, hoje. (Vejo, agora, guarda-chuvas remendados e óculos mal-dispostos, coxos maltrapilhos e o submundo emanando, sendo atraído pelo ambiente sórdido deste bar, o bar do chinês, o bar do bebê Felipe, admiro obliquamente a chuva leve, flagelos, pregos, sutis alfinetes, e relembro a minha história, que nem parece mais a minha, a chuva me diz que o mundo está ali fora e se eu não caminhar... morrerei sem ter vivido.) Mas será que eu seria tão tímido e teria tão baixa autoestima e confiaria tão pouco nas pessoas se o que ocorreu tivesse sido, pura e simplesmente, veja só, um pesadelo num sono leve? Acho que não. Se eu tivesse sido um adolescente normal, levaria atualmente, claro - e não quero nem imaginar -, uma vida média, com leituras médias, idas médias ao cinema e às missas, médias namoradas e um médio corpo bombado e bronzeado - um médio emprego e uma média aposentadoria me esperariam no futuro -, na medida em que eu seguiria os planos e anseios dos meus carrascos pequeno-burgueses, seria como eles, não teria prestado o vestibulinho para a Federal com a intenção de dar o fora do ambiente traumático, fugir das mentes vazias. Por esse motivo, sim, não lamento as brasas (insuportáveis, de fato) que por tantas vezes me levaram à ideia do suicídio, ou melhor, ao desejo de não existir. O sofrimento me trouxe muitas coisas boas. Os enrubescimentos fazem parte do passado, que é passado, assim como as lágrimas, que já secaram. Vocês conseguem me entender? (Desculpem a imprecisão, as linhas pandemônicas.) Os filhos da puta quase me destruíram, mas eu estou aqui, escrevendo estas linhas, não errando nas vírgulas ou na grafia, sou um ser humano melhor, mais condescendente e lúcido, a despeito do desespero e da letargia por não ver sentido em nada - e isso é outra história, apesar de eu ser um só - sou mesmo, Harry Haller?... Certo, como vocês devem estar curiosos, vou lhes contar, a quem, o que me acometeu no início da adolescência, o que incitou os idiotas com gel no cabelo e uniforme roxo ("Consolata" nas costas da jaqueta, no flanco esquerdo da calça de náilon) e os professores e até a coordenadora daquela escola católica a me ofender com os piores nomes imagináveis ou não: eu era o homem-elefante, era a aberração, o único que tinha a cara deformada e em carne viva no bairro, na cidade, não: no país inteiro - mentira, como descobri depois. Ninguém perdoava o pus, tampouco o sangue. Eu não conseguia virar o rosto, meu pescoço possuía crateras de pele morta e não secava, não, eu não suportava tomar banho ou andar, doía tudo, sofria, física e mentalmente, muito. Muito, podem acreditar: tentem imaginar. Dos olhos ao queixo, é isso aí, é isso mesmo!, era carne viva. E nas dobras das quatro articulações também. E no pescoço. Deus algum teve misericórdia... Os meus colegas de classe também não, salvo algumas exceções - Letícia, Rafaela, Luan, Bruno, Fernando e, principalmente, a Débora (que eles estejam bem, que ela esteja feliz). Naufraguei, emergi. Passei três anos naquela escola de merda, dois dos quais naquela situação inconcebível, que, como veem, prefiro deixar imprecisa. Minha pele melhorou a custo de muitos tratamentos, mas demorou... A música era minha válvula de escape, passava horas ouvindo rádio e gravando músicas aleatórias em fitas cassete, horas e horas dentro do quarto fechado e escuro, ouvindo programas humorísticos e de futebol ou no completo silêncio. Caralho, eu não suportava pegar ônibus, comprar uma revista na banca, passava a pomada a cada meia hora com a intenção insana de ver a coisa abrandar... Mas não me lembro de muita coisa, nem parece que eu vivi tudo isso. Nenhum registro fotográfico ou escrito daqueles tempos... Bem, estou cansado de escrever, e a título de conclusão deixo registrado que eles não tiveram consciência de seus atos e que os filhos da puta emitidos aqui são pura força de expressão e que tive a maior compensação do mundo, três anos maravilhosos na Federal, e que vocês, quem, podem saber mais a respeito das minhas antigas escoriações, de modo genérico, claro, procurando no Google por dermatite atópica e que eu estou bem, minha pele está bem e tudo foi o que foi e não há volta e que talvez eu modifique este texto depois, não estranhem. Só isso: eu estou bem, pois já estive pior.