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Quarta-feira

Sempre os mesmo clichês designando os sempre renovados problemas. Eu sou um réptil - uma salva de palmas para o homem-elefante, este diante dos seus olhos, reprimido sob as luzes da ribalta, chorando e se cagando de desespero. Um tiro na cabeça cairia bem para abrandar o meu desconforto. Resíduos cerebrais escorrendo em meio aos pedaços de ossos, a carne dilacerada e retorcida e rosada... Não desprezaria, também, um lance do acaso que me colocaria face a face com um ônibus a noventa por hora, os pés além do meio-fio, o instinto paralisado, o choque doloroso: a dor instantânea e, salve, salve, a morte: a serenidade do meu cadáver, o olhar contemplativo da eternidade debaixo do pano sujo que me serviria de mortalha. Não paro de arranjar motivos para derramar as lágrimas, que não caem. Dormir, agora, e acordar, já tarde, sob a clara manhã, que, imperiosa, trará de volta a atmosfera alegre, esperançosa. Viver!, e eu não me acostumei aos meus quatro membros, ao movimento grotesco das articulações, às unhas que crescem sem motivo algum, às bundas inúteis e cegas que passam, aos pulôveres dos deficientes. O universo dançante! Pessoas morrendo, nascendo, se matando. Estes esboços feitos com uma caneta bic quase no fim... Filho da puta. Entrementes, destruo mais um pouco o meu pulmão... Uma overdose de remédios ou uma queda do vigésimo terceiro andar resolveriam tudo. Os galhos da árvore lá fora permanecem imóveis. A chuva começa a cair.