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Sexta-feira

Meu chapa, vou te contar. Ontem à tarde, indo em direção aos armários da biblioteca pra pegar a minha mochila e cair fora, esbarrei com uma garota que me fez oscilar, tonto, para frente e para trás, e levar as mãos aos olhos, perturbado. Seu rosto voltado para a porta, os raios de luz incidindo diretamente nos seus olhos azuis, claríssimos, queimando-me impiedosamente, humilhando-me pelo resto do dia, devolvendo-me à posição de barata chinesa, lombriga intestinal. Ajoelhada, os cabelos curtos, loiros e crespos, uma expressão de alheamento, colocando os livros e cadernos na bolsa: um olhar de cansaço e desesperança, a testa crispada, foi o que vi – meus olhos pequenos veem muito mais do que a maioria poderia supor - mais supondo, na verdade, talvez, os meus olhos, do que perscrutando a realidade como realidade. Sua beleza e sua tristeza quase me fizeram chorar. Na prática a teoria é outra. As formas harmoniosas e os traços europeus tornam as pessoas sempre melhores do que realmente são. Ora. Mas aqueles olhos tristes e claros, tão claros: comecei a tremer... No fundo eu sou um puta dum sentimental. Tipo o Arturo e o Jimmy, o Fante. Enfim. Minutos antes, sentado lendo Hoffmann, apareceu, acompanhada do pai, ou avô, uma garota toda retorcida, com extrema dificuldade para andar – como se diz, ela parecia estar sempre às raias de desabar no chão. As mãos como gravetos, o rosto eternamente franzido, o lento e afetado andar de tartaruga atraíam olhares numerosos, apesar de discretos. E os olhares piedosos miravam o tortuoso movimento, o pé esquerdo subindo, subindo, e depois descendo, todo o flanco esquerdo também indo fundo, depois o direito subindo, subindo, e descendo... (Com a cota diária de piedade atingida, eles voltam às suas vidas, aos seus livros didáticos, ignorando o fato de que a coisa mais lúcida a ser feita é tomar estricnina e morrer o quanto antes... o extermínio, a extinção em massa: a natureza tem aguentado firme a invasão bárbara e passará muito bem sem nós, obrigado.) Fiquei puto com a porra da situação da garota. Eu, eu não agüentaria nem fodendo. Já fui o aleijado e sei como é. Eu sei, eu vivi. De qualquer maneira, mesmo tendo o coração batendo no ritmo certo, os pulmões funcionando perfeitamente há 7451 dias ininterruptos, braços e pernas normais, eu bem que gostaria de levar um tiro na cabeça. Ou de dar um tiro na cabeça. No céu da boca, no quarto escuro, numa noite fria. Com um bilhete póstumo para os meus pais sobre a mesa: desculpem, mas não deu. Faço tudo de modo mecânico e desapaixonado, cada momento dos dias que vêm e vão são recheados do mais puro e genuíno vazio: Nada é a minha palavra de ordem, a palavra mais bela e odiosa do mundo, a mais bela e odiosa do mundo - contorço-me no lodo, enfim, cago sobre a minha própria cama amarfanhada, boto uma vela no bolo e canto os parabéns pra você. Perdoem-me, adoráveis pais, mas não deu: estou feliz agora, voando por aí, dando curvas abertíssimas e rasantes destruidores sobre as cabeças dos filhos da puta, voando além das nuvens e ao mesmo tempo farfalhando, escorrendo e sendo cagado, correndo montanha abaixo rumo ao Índico, virando mesa, livro e javali - assinado, Henry. É de enlouquecer... o mosaico irregular da humanidade, o contraste desigual entre as coisas, eu ocupo o camarote no teatro da comédia humana - figurante e espectador - e, atônito, diviso covardemente sem nada poder fazer... Um tiro no céu da boca. Os meus olhos estão cheios de lágrimas agora. Por causa da triste e maravilhosa garota de olhos azuis, inalcançável, por causa do pai, ou avô, e sua filha, ou neta, toda desconjuntada, por causa da tristeza e da nostalgia do Fante, por causa da queda livre a mil por hora da minha vida, toda esfrangalhada, tornada cinzas. Invariavelmente. Os meus olhos estão cheios de lágrimas agora. Não há ponto de fuga, não há escapatória. Miro o chão, não penso em nada. Bato os pés, acendo o meu sexto cigarro.