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Domingo
Náuseas que atravessam o terceiro céu, capazes de ruborizar fortemente as têmporas de algum ser dez anos-luz além, náuseas minhas, aqui, empertigado, os pés sobre o banco, as mãos cobrindo o rosto, o feto e a ilha cercados por formigueiros e ruídos que não sei de onde vêm, sombras e sombras longas, disformes... Náuseas que eu aguento na companhia da minha cerveja quente e da minha imaginação, sempre ela, fiel escudeira. Eu sou um gigante, hércules-eremita, um gigante de braços finos e tronco mole, meus músculos atendem pelo nome de Fante, Dostoiévski, Bukowski, Hesse, Bernhard, rebatizei o meu Cérbero de Fonseca e chamo o meu coração, no escuro, de Jerome David Salinger... Mas o formigueiro é infinitamente grande e eu, vez após vez, caio sobre os joelhos com mais uma fratura exposta... As bocetas inatingíveis à mostra e os filhotes de barata me perseguem... Não adianta - nunca adiantou - agir com cortesia e benevolência: o chinês filho, em particular, sempre age de modo frio às minhas saudações bêbadas (e ele não está certo?), os transeuntes e os livreiros e as empregadas e secretárias, em geral, agem sempre com desdém e dissimulação... As marcas do copo de cerveja sobre a mesa, linhas de água ovais e sobrepostas ao lado do meu Notas do cotidiano II por Henry K., são as minhas interlocutoras hoje à noite, e eu falo sobre a merda endurecida dentro do meu intestino de sete metros, sobre os engravatados tomando conta de toda a porra da calçada (e, claro, das executivas cheirando a cu arrombado e a esperma dos chefes), sobre a minha preferência deliberada por Derbies e não deliberada por Krills (tudo não é questão de costume?), sobre os fios de eletricidade balançando ao vento e sobre o céu escuro não estrelado que me faz lembrar que ainda não li Faulkner nem James Joyce...