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Domingo
A minha voz rouca e anasalada ecoa entre as fileiras de soldados eu tenho plena convicção se palmilhei por tanto tempo ou estou errado a mentira está em todos os amigos dos meus amigos mortos pra mim os galhos da árvore escasseiam e vão minguando até uma origem comum não estou errado pergunto se eles estão prontos – se os familiares foram mandados à merda e todos os documentos repousam extintos no fundo do atrás de cinco ou seis desconhecidos, à frente de mais uns tantos, bem escondido no flanco esquerdo ele não me vê e eu quase não ouço o que ele diz é nítido o nervosismo dos mais jovens, os velhos, todos com o rosto maltratado, a testa profundamente vincada, estão mais serenos, os olhos deles, de todos eles, miram o céu, uma melancolia alegre, ou melhor, serena, a mente trabalhando à cata de recordações e leituras marcantes agora que o fim se aproxima, barras de chocolate branco do meu ex-avô, voltas de bicicleta pelo quarteirão e além, guerras estrondosas sob a mesa, onde o mais fraco sempre vencia, o mais surrado, o suor nas têmporas e as pernas incansáveis, duas, três horas, a minha ruína e redenção na literatura, mal reconheço agora esta cara amarga e estes dedos afilados, a angústia rouca, esplêndido céu cinza, opaco, ele quase nos toca – o clima está bom para o sangue e para a extinção me deixe só onde você estava quando fui à sua casa malditos somos malditos a culpa é nossa não é estranho estranho seu estranho Não Amy você sabe que eu sempre agi do modo mais correto ao meu alcance fiz tudo a mentira está em todos mas nunca esteve em nós você sabe disso e eu fui o melhor que pude limpo a garganta, lanço na terra seca um cuspe viscoso e ressequido – não bebemos nada desde que partimos –, levanto as mãos e digo, alto, forte, irmãos humanos, jovens e velhos gauches, em comum temos a certeza de que nenhuma guerra merece ser lutada, que todos os nossos esforços serão inúteis, a literatura foi a nossa salvação e as eu lamberia chuparia os seus pés como um cabrito à cata de leite materno esfomeado nada mais me surpreende a realidade não me interessa belisque a minha bochecha puxe a minha barba fale baixo pra não acordá-lo irmãos humanos e velhos gauches temos de que nenhuma merece ser lutada eu estou chorando, é inevitável, tomo consciência das chaves no meu bolso e das anotações, sinto sede, uma irritação na garganta, espero que não sobre nada quando – brinco com as chaves enquanto procuro a frase exata, a síntese de tudo aquilo todos à minha volta choram, derrubam suas lágrimas de cabeça erguida, estamos entre iguais somos todos irmãos e pensamos de modo semelhante alheios dissociados eu palmilhei tanto e testei todas as escolhas do labirinto todos os caminhos sem sucesso mamãe e papai frustraram-se mas eu sei a verdade eu conheço a verdade e todos à minha volta, não desistirei guerreiros amarfanhados, eu digo, avante!, marchemos em direção à Verdade, marchemos sem medo do sangue, sem medo da morte rainha dos deformados, musa improvável, eu te vejo bem perto agora, e mais ouço à minha direita, alegria, alegria, sorrio afavelmente, tento imaginar o tamanho de Saturno um velho ao meu lado entoou despreocupadamente um alegria alegria enquanto marchávamos todos em silêncio, as mãos nos bolsos, que estranho, tão suave, tão sereno, mas a cara dele é tão infeliz e amarga que eu tive vontade de chorar e chorei perfilamo-nos à beira do abismo, ainda não vemos nossos inimigos rainha dos deformados, musa improvável nós tivemos tanto rainh mas é agora, chega de papo, agora, o último homem acaba de postar-se junto a nós, vinte soldados contando comigo, lado a lado, nosso exército em silêncio absoluto e eu grito com todas as minhas forças lançamo-nos de olhos fechados na grande noite somos irmãos gauches na vida – rainha dos deformados, musa improvável, engula-nos bem caímos rumo à felicidade, as mãos livres, os rostos molhados, sorrindo pela certeza de que ela nos engolirá bem, tragando, sorvendo, decompondo, voltando ao pó nós nós somos tão pouco agora eu sei rainha