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Sexta-feira

Não só a morena uspiana dos olhos mais assustadoramente azuis que já vi - os mais nítidos e distinguíveis do verde - que, gesticulando com a mão direita, franja ao vento, dava respostas precisas a perguntas comuns, ficava em silêncio pelo tempo ideal e voltava a falar carregando as palavras de uma sinuosidade maravilhosa, mas também: a velha de cabelos curtos com um cigarro na boca, debatendo-se com o jornal, em pé, no ponto de ônibus - a única da fila, vultos ao redor, a chuva e, por qual motivo, o meu sorriso de apreço e o vislumbre violento de uma certeza de que já não recordo (imprecisa, absoluta). E: a gorda truculenta, o buraco humano, pisando em poças d'água, cínica, rude, abrindo passagem sem pedir licença, desdenhando... Viajando: nos buracos: os executivos ocupando toda a calçada, cuspindo no meu pé, o cara que, de ombros enrijecidos, ou o fraco sou eu, trombando violentamente em mim e nem se virando pra se desculpar - dele só vi o quepe: desde lá a imagem da maldade, da intransigência: o resíduo perene na consciência, filho da puta (Bukowski: "esses são os mortos/neblina e fumaça/o fedor no ar/os leprosos")... no infortúnio: os mendigos da Liberdade, dormindo no chão cheio de merda de pomba, o cara sem pé, de rosto vincado, subindo o desnível do terminal, a garota sem perna, de muletas, pegando a fila preferencial, os óculos desalinhados, os guarda-chuvas quebrados, tantos, tantos... na beleza: a Winnie Cooper do trem dando tchauzinho e sorrindo, porra, a garota mestiça, linda, fazendo gracinhas pra mim diante do olhar desconfiado da avó encarquilhada, em ruínas, uma universitária dançando na plataforma da estação Liberdade, sorrindo, fingindo não ver os meus olhares encantados ou

Voltando para: sexta, 4/03. A chuva. A truculência. A velha e a morena. E: a professora de Cultura e civilização alemã, Dorothee, mais bonita que a Sharapova, de traços mais delicados e cabelos mais escuros, falando e se arrastando no portunhol enquanto, nervosamente, alterno meus olhares ora para o primeiro buraco da folha de fichário, em cuja beirada traço riscos com o lápis, ora para os olhos e o nariz e a boca e os braços dela... E: eu falando por uma hora ininterrupta na terapia com uma fluência que desconhecia, num tom plenamente discernível, citando a dona de um sebo da Teodoro sampaio descrita em Memória de elefante e que eu decidamente conheci na vida real: o cabelo crespo, os olhos injetados, o celular sem fio na mão, a arrogância, o total desinteresse em ler os livros que vende etc. E: a guardinha da biblioteca virando o rosto enquanto remexo a prateleira de hqs "adultas", Crepax, Crumb, Burns, Manara et al. No banheiro, resquícios de merda alheia na privada e pouca, realmente pouca merda na minha cara que, no espelho, deus pai, nem parece tão má, não mesmo. E, por fim: a chuva. A chuva. A chuva, caralho. A minha cara molhada enquanto caminho até o terminal tropeçando nas poças e cantando na chuva o milagre, o milagre.

Tudo isso (não perceberam? Culpa minha). Tão pouco. Tão, tão pouco, mas o suficiente para, depois de dez meses, eu quebrar o silêncio*: você sabe, o tremular das mãos, as marteladas no cérebro, o riso e o choro incontroláveis, a necessidade de por a coisa pra fora. Pretendia ir ao bar do chinês hoje pra fechar o dia em grande estilo: saudade dos mesmos velhos rostos simples e da atmosfera triste, da música setentista e do ar frio da noite. Resolvi ficar e ler o Eisner, mas... vim escrever aqui. Ontem, quinta, foi um dia difícil, angustiante, sabe. A falta de propósito da minha vida. Algumas contas de matemática simples que me botaram pra baixo. Aulas vazias e desinteressantes. O fracasso. A solidão. A possibilidade de suicídio, estável em uns 5%, subiu pra vinte, por aí. Saltar de um prédio não parecia nenhuma loucura. Do Notas do cotidiano II, por Henry K., a lápis e borrado pela garoa (a tristeza e a verdade não são perceptíveis senão para mim mesmo, óbvio):

Hoje,

         infelizmente,

                             é um mau dia

Eu, eu escrevi isso ontem, nos bancos de pedra da filosofia.

Hoje, termino este texto difuso e demasiadamente confessional assim:

Vida? Sim? Sim... com todos os reveses, sim sim sim

*Só pra constar, tenho escrito com regularidade no Impressões de um cão, blog protegido por senha e com textos esboçados e sem revisão. O longo hiato restringe-se a este blog.